Maré vermelha tomando a América Latina?

“É o globalismo esquerdopata tomando o mundo” – afirmarão os conspirólogos.

Calma, não é para tanto. Mas sim, a esquerda parece estar dando um rebote em todo o continente.


Brasil

A gente começa pelo que é mais fácil de entender: o Lula segue liderando as pesquisas. Bolsonaro deu uma crescida, mas ainda é mais provável que Luis Inácio acabe ganhando.


Argentina

A situação dos nossos hermanos é praticamente uma prévia do que pode acontecer por aqui. Em 2015, cansados da Dilma deles (a Cristina Kirschner) os argentinos elegeram Maurício Macri, candidato da centro-direita.

O partido do Macri, o Proposta Republicana, é filiado à União Internacional Democrata, a mesma organização da qual o União Brasil (esse partido nascido da fusão do PSL com o DEM) faz parte.

Pois bem: depois de 4 anos desse governo conservador e neoliberal, em 2019 os argentinos foram lá e elegeram o atual presidente, Alberto Fernández (o Professor Girafales), do Partido Justicialista, o mesmo dos Kirschners (aliás, Cristina é a vice dele).


Uruguai

Se a Argentina serve de prévia para nós, nós podemos servir de prévia para o Uruguai.

Todo mundo se lembra do lendário José Mujica. E tem muita gente que ainda acha que ele governa nossos coirmãos cisplatinos. Mas Mujica saiu do poder em 2015, dando lugar ao Tabaré Vázquez, do Partido Socialista.

Em 2019, depois de 15 anos de governos de esquerda, os uruguaios elegeram o direitista Luis Lacalle Pou. Ele tomou posse em março de 2020.

A questão é que a popularidade do governo Pou cai sem parar desde o começo do mandato. Estava em 47% no final de 2021. Eles ainda não têm pesquisas para as próximas eleições (que só ocorrerão em 2024), mas é possível que a esquerda volte ao poder, com voltou no caso argentino e como parece que vai voltar aqui na nossa pátria varonil.


Chile

Dia 11, agora, tivemos a posse do Gabriel Boric, presidente do Chile. O cara foi eleito por uma frente ampla, que vai da esquerda moderada até o Partido Comunista “raiz” de lá.

O Chile vem desde a época do Pinochet com a economia mais liberal de toda a América Latina.

Em 2019, o país chegou ao fundo do poço em termos de desigualdade social. Um troço tão absurdo que as pessoas pobres morrem sem assistência de saúde básica e tem velhos se matando por causa do sistema previdenciário, copiado dos Estados Unidos.

Agora, os chilenos estão dispostos a reformular tudo, da economia até a Constituição. E elegeram esse Boric, que parece bem intencionado apesar de ter umas tendências meio “esquerda lacradora”.

O grande obstáculo no caminho dele é o Legislativo, cheio de conservadores.


Colômbia

Por lá, o candidato mais forte nas pequisas para as eleições presidenciais é Gustavo Petro, que foi guerrilheiro nos anos 80 e atualmente é senador. Esse Petro acaba de ganhar as prévias para concorrer como candidato da esquerda à Presidência. E tem uma baita chance de ganhar.

O país teve eleições para as duas casas do Legislativo neste domingo. O partido do Petro agora triplicou de tamanho. Ainda não é a maior força do Parlamento, mas alcançou sua melhor marca em toda a História. E na “hora do vamos ver”, o candidato sabe que contará ainda com o apoio do partido dos Comuns, com uma bancada mediana, e que basicamente representa as FARC após o pacto que acabou com a guerra civil entre o governo e a guerrilha.

O país atualmente está nas mãos do Centrão colombiano. E como esta gestão está sendo um desastre (o índice de desemprego bateu em 15% e a violência toma conta das ruas), tanto o Centro como os conservadores vêm despencando nas urnas e nas pesquisas.


Peru

No Peru a gente tem o Pedro Castillo, aquele presidente que todo mundo dá risada por causa do chapéu engraçado que ele usa. O cara foi até em debates usando aquele chapéu, e quando foi votar, foi a cavalo.

Só que ninguém se liga do detalhe importante: ele chegou à presidência depois de liderar uma greve nacional de professores.

Isso mesmo: Castillo é um sindicalista, um “petralha”, um “sovaquista do CPERS”. O partido dele, o Peru Livre, é membro do Foro de São Paulo. E o lema dos caras é “No más pobres em un país rico”. Preciso dizer mais?


México

Outro país importante da América Latina é o México. Mas o México havia mandado para casa o último presidente de direita – conservador, neoliberal e tal – em 2012. Naquele ano, botaram no poder um presidente do Partido Revolucionário Institucional. Agora, o poder está com outro partido de esquerda, o MORENA, do presidente Andrés Obrador.

Obrador é um sujeito peculiar. Gostei dele quando ele disse que o tal muro que o Trump planejava construir era um “assunto interno dos EUA” e basicamente mandou a o presidente americano catar coquinho.

Esse MORENA combina o que se chama de “socialismo do século 21” com o Cardenismo – que são os valores do governo de Lázaro Cárdenas. Só para vocês entenderem, esse Cárdenas governou o país entre 1934 e 1940, e foi uma espécie de Getúlio Vargas mexicano.


Bolívia

Quando Evo Morales foi reeleito (pela terceira vez) em 2019, seus opositores foram às ruas alegando que havia ocorrido uma fraude. Os milicos entraram na Briga e Morales teve que fugir para o México.

Aí, o poder ficou com a senadora Jeanine Áñez, de centro-direita. Pois bem: em 2020, sem fraude nem nada, o povo foi lá e elegeu Luis Arce – justamente o Ministro da Economia do governo Evo Morales, e obviamente também filiado ao Movimento ao Socialismo.

Depois, a tal Jeanine acabou sendo presa, por mandar matar manifestantes durante seu curto governo. No xilindró, fez uns cortes nos braços na esperança de que as pessoas ficassem condoídas de seu sofrimento e aliviassem um pouco a barra. Não funcionou.


Honduras

Em 2021 os hondurenhos elegeram a presidente Xiomara Castro, do partido Libre.

Dizendo assim, parece que não foi nada, porque a gente fica pensando que deve ser uma coisa parecida com o “Livres” do Brasil. Só que não é.

O tal “Libre” de lá não tem playboy de sapatênis recitando cartilha liberal, não.

O partido nasceu da antiga Frente Nacional de Resistência Popular, surgida em 2009 para lutar contra um golpe militar que estava acontecendo no país.

O engraçado é que o marido da presidente Xiomara, é o ex-presidente Manuel Zelaya, que foi derrubado justamente pelo golpe de 2009. Então ela foi primeira-dama, daí liderou a luta pela volta do marido que chegou a ser exilado, e agora ela é presidente – e ele é que virou “conje”, chamado de primeiro-cavalheiro.

O detalhe é que Manuel fez um governo centrista, enquanto Xiomara tem uma base política mais à esquerda.


No Equador foi quase

No Equador, tivemos eleições presidenciais no ano passado. O cara da esquerda, Andrés Arauz, liderou o primeiro turno e perdeu no segundo (porque direita e centro se uniram). Mesmo assim, perdeu apertado: Guillermo Lasso, o vencedor, saiu com 52,36% dos votos válidos. Ali, ali.


Cuba

Vamos falar da “disneylândia dos comunistas latinos”. Em 2023, teremos eleições para a Assembleia Nacional de lá. As primeiras da História sem a participação de nenhum dos irmãos Castro.

Para se candidatar, o sujeito por lá não pode ter nunca cometido um crime (o que, em Cuba, inclui não falar mal do governo). As candidaturas em si são organizadas em uma lista, com coisas como “patriotismo, mérito, histórico revolucionário” e outros critérios sendo levados em conta.

Não há partidos políticos – na prática, só entra quem segue a cartilha do Partido Comunista.

A questão é que essa “virada vermelha” que está acontecendo em praticamente toda a América Latina pode acabar dando um alívio – pingar um pouco de soro nas veias da economia cubana, que está há anos na UTI.


Venezuela

Esse, é outro país quebrado e f*dida no qual a esquerda está no poder há anos, mas infelizmente o sistema eleitoral é todo ferrado.

Assim como Cuba, a Venezuela tem diante de si a esperança de sair um pouco do buraco. Não só pelo surgimento de um monte de potenciais aliados no continente mas porque agora, com a guerra da Ucrânia, os EUA falam em alívio das sanções em cima do país. Como os venezuelanos têm petróleo a dar com pau, pode ser que saiam um pouco do atoleiro.

Em 2020, teve eleições por lá. O Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv) levou 90% das cadeiras da Assembleia Nacional. Acontece que os principais partidos da oposição resolveram nem participar.

As eleições por lá são mais FAKES do que enquete de site de pré-candidato brasileiro.


Agora falando em Evo Morales…

O nosso dublê boliviano do Zacarias andou se pronunciando nos últimos dias. Ele diz que a OTAN é um perigo para o mundo e bota a culpa pela guerra da Rússia contra a Ucrânia, ao menos em parte, na sanha expansionista da aliança liderada pelos EUA. E em parte, ele tem mesmo razão.

Ele agora fala em lançar uma campanha internacional para formar uma frente esquerdona contra o imperialismo americano.

Se bobear, lança a ideia de montarem mesmo a URSAL. E aí, Cabo Daciolo pira de vez.

Escritor, jornalista, videomaker e servidor público. Autor de "Política para Iniciantes" de outros livros. Às vezes, assusta as pessoas por falar o que pensa. É o profeta que uma geração alienada pelo TikTok precisava. Ainda será Presidente do Brasil (ou não).