O espírito indestrutível do povo russo

Não vou fazer rodeios: o grande trunfo da Rússia é, e sempre foi, sua gente. Os russos são um povo formatado com a ideia de sacrifício, de luta.

Quando os nazistas invadiram a União Soviética, depararam-se com soldados que combatiam sem hesitar – lutavam sem pensar na própria segurança.

Já em séculos anteriores – nas guerras napoleônicas, na Guerra de Criméia – autores ocidentais falavam em um certo “fatalismo russo”. Na figura do soldado que, ao invés de fugir enquanto há tempo, fica em sua posição e atira até a munição acabar e então, cercado, se senta no meio da neve e toma seu traguinho bem tranquilo, de boas, à espera da morte.

Agora, veja esta manchete do jornal Causa Operária: “Sobrevivemos ao fim da União Soviética, não temos medo da crise”.

A matéria em si mostra depoimentos de russos comuns – pessoas entrevistadas a esmo pelas ruas das cidades. E eu teria dúvidas quanto à veracidade do texto, se já não tivesse visto entrevistas semelhantes, em vídeo, no Youtube. Eu sigo canais que estão na Rússia, falando com a população. E tudo confirma-se.

É isso mesmo: os russos já passaram por dificuldades imensas. As atuais sanções ocidentais estão pouco a pouco impactando as vidas dessa gente, mas ao invés de quebrarem seus espíritos, apenas deixam todo mundo com mais raiva dos EUA e de seus aliados.

Por isso a aprovação da guerra de Vladimir Putin segue crescendo sem parar.

É uma diferença de mentalidade que quase ninguém, do lado de cá, consegue entender.

O cidadão ocidental médio, individualista e com uma visão de mundo centrada no ego e no hedonismo, pensa assim:

“Quanto mais sanções, mais sofrimento. E se povo sofre, Putin perde apoio e os russos vão pressioná-lo a recuar.”

Os russos, no entanto, entendem que estão sendo cada vez mais cercados e que portanto devem apoiar ainda mais seu líder e lutar com mais intensidade.

O país nasceu justamente da resistência contra os mongóis, povo que detinha o poder hegemônico sobre o mundo do século XVIII. E consolidou-se enfrentando os poderes hegemônicos de cada época: Napoleão, os suecos, os grandes impérios alemão e austro-húngaro, Hitler.

Por que seria diferente agora que o poder hegemônico da nossa época – os EUA – tentam o mesmo que todos tentaram e falharam?

Os protestos nas ruas da Rússia, ao invés de aumentarem, estão diminuindo. Sem espaço para a oposição e para a imprensa livre, o país vai perdendo uma parte de sua preciosa população.

Os “derrotistas”, os “traidores”, os “desertores” vão pulando fora. Ao sul, a Geórgia – país com o qual a Rússia tem tratados de livre circulação e que portanto não exige muita burocracia para o ingresso de russos – recebe milhares de auto-exilados.

No fim das contas, quem fica? Ficam aqueles que o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou como “os russos de verdade”. Os russos dispostos a ir até o fim nesta empreitada.

Esse pessoal, que segue firme no apoio à guerra e a Putin, pode parecer um bando de malucos. Mas, mais uma vez, temos que entender que são um povo com uma formatação básica diferente da nossa.

Boa parte dos projetos do Brasil começam dando errado. E nós, como bons ocidentais, mudamos, desistimos, fraquejamos diante das adversidades e do desconforto.

Eles, não. Eles nunca recuam.

O cidadão russo comum está, sim, sofrendo com as sanções.

O governo russo tenta produzir localmente produtos que antes eram importados, e certamente o faz com qualidade inferior. Mas as pessoas lá estão dispostas a aguentar. Elas olham para a história e veem razões para resistir.

Nikita Kruschev queria transformar tundra e desertos em regiões plantáveis. Tentou, e falhou desastrosamente. Houve fome e crise. Então ele tentou denovo. E denovo. E no final, conseguiu.

Raciocine comigo:

A Rússia vai mal? Vai.

Os planos na Ucrânia saíram pela culatra? Praticamente.

Mas quando é que alguma coisa feita pela Rússia deu certo?

Tudo por lá começa dando errado. Eles vencem não pela excelência, não pelo planejamento realista e sim pela persistência.

Essa é a perspectiva – essa é a experiência deles.

Em toda guerra que há, a Rússia sempre começa vendo seus planos e providências fracassarem. Em todo grande projeto científico, alguma coisa explode. E no entanto, os russos sempre persistem e, ao persistirem, sempre triunfam no final.

Em cada entrevista que eu vejo – no Youtube, ou nos poucos sites de notícias que furam a narrativa uniforme das agências ocidentais – é este espírito: “estamos nos ferrando, como sempre nos ferramos – mas se resistirmos vamos vencer, como sempre vencemos.”

Certos ou errados nessa guerra, os russos acreditam em sacrifício e em persistência.

E acreditam que dobrando a aposta a cada adversidade, vencerão no final.

Há quem apresente argumentos e faça análises no sentido contrário. Mas eu – como humilde articulista que sou – é que não vou contestar uma mentalidade que tem encontra comprovação repetidas vezes na história por quase um milênio.

Escritor, jornalista, videomaker e servidor público. Autor de "Política para Iniciantes" de outros livros. Às vezes, assusta as pessoas por falar o que pensa. É o profeta que uma geração alienada pelo TikTok precisava. Ainda será Presidente do Brasil (ou não).