Mourão e o “julgamento dos mortos”

Hamilton Mourão, general, vice-presidente. Tem fama de racional, de sensato, ainda mais porque sua referência de comparação é o presidente Jair Bolsonaro.

Hoje, no entanto, ele deu uma de suas “bolas fora”.

Falando sobre a apuração dos crimes da ditadura militar após a abertura de áudios da época, o homem me sai com essa:

“Apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô. Vai trazer os caras do túmulo de volta?

É a mesma coisa que a gente voltar para a ditadura do Getúlio (Vargas). São assuntos já escritos em livros, debatidos intensamente. É passado, faz parte da História do país.”

Ele tem razão? Até certo ponto sim. Mas…



“A história tem dois lados”

A frase também é do Mourão.

Toda vez que se fala em tortura e assassinatos no regime militar, seus defensores falam em “violência dos dois lados”, citando “grupos terroristas”.

Vamos colocar as coisas em ordem cronológica aqui:

Os grupos terroristas, que já existiam antes de 64, “engordaram” como forma clandestina de oposição, depois que a esquerda deixou de encontrar espaço legal para atuação.

Era coisa comum da época da Guerra Fria. Os horrores da União Soviética ainda não haviam sido suficientemente divulgados para acabar com o encanto do comunismo como utopia.

Ainda assim, é importante entender uma coisa: terroristas matam, torturam, abusam sexualmente de suas vítimas. O Estado, jamais. Ou não é Estado, e sim apenas outra gangue de bandidos.



É tudo verdade

O regime militar foi uma vergonha. Perseguia opositores, fossem pacíficos ou terroristas.

Prendia humoristas, silenciava jornalistas.

Há quem diga “ah, eu vivi naquela época e só vagabundo era perseguido”.

Errado: apenas os alienados e os coniventes deixavam de ser peseguidos.

Os cordeirinhos.

Teve muito inocente espancado, ou que teve o apartamento revirado pelos militares por mero engano. E isso, não li em livro algum. É fato verídico ouvido em casa.

Eu conheço muitas histórias do regime militar.

Torturaram, censuraram. Destruíram o Brasil. E roubavam.

Novamente, não li nada disso em livro algum.

Ou melhor, até li – mas prefiro acreditar nos relatos pessoais de quem viveu a época.

Eu venho de uma família de militares, de professores, de servidores públicos. Os velhos que me contaram tudo não eram militantes, torturados, guerrilheiros. Eram o outro lado. Gente envergonhada de ter presenciado (às vezes de perto) o absurdo, sem poder evitá-lo.

É tudo verdade.



Apurar o que?

Mourão não entendeu uma coisa: os crimes do regime militar precisam ser minuciosamente apurados, não porque pretenda-se prender os mortos. É que existem pessoas vivas que os negam.

A Rússia até hoje recusa-se a falar abertamente sobre os crimes do seu regime comunista. Não por acaso, o país segue sendo uma semi-ditadura que agora parece empenhada em uma espécie de suicídio nacional.

Já a Alemanha resolveu encarar de frente seu passado nazista. Investigou e julgou até o último guardinha de prisão vivo, como uma forma de fazer as pazes com sua própria história. Por isso evita repeti-la, e hoje é uma democracia sólida – a locomotiva da União Europeia.

E a pergunta que nós, brasileiros, devemos fazer é a seguinte: como vamos lidar com nossos próprios “esqueletos no armário”? Queremos ser uma Alemanha ou uma Rússia?

Na minha humilde opinião, enquanto houver negacionistas haverá a necessidade de reafirmar o que todo mundo já sabe. Ou deveria saber.

Escritor, jornalista, videomaker e servidor público. Autor de "Política para Iniciantes" de outros livros. Às vezes, assusta as pessoas por falar o que pensa. É o profeta que uma geração alienada pelo TikTok precisava. Ainda será Presidente do Brasil (ou não).