Voto de papel

Vou escrever esta coluna exclusivamente sobre o voto escrito, o voto de papel. Como os votos eram apurados há 25 anos.

Me sinto obrigado a falar sobre isso, pelas ameaças que pairam sobre a urna eletrônica por conta deste presidente escroto que quer a volta do voto escrito e ataca a todo momento as urnas eletrônicas. Ele quer voltar ao passado porque sabe da fragilidade que eram as urnas de lona e como era fácil fraudar uma eleição durante o escrutínio.

Desde 1986, sempre fui convocado pela justiça eleitoral para mesário ou escrutinador na cidade de Viamão, onde morei por muitos anos. Viamão é o sétimo colégio eleitoral do Estado (185.000 eleitores). Portanto, tenho experiência prática em eleições.

Vou tentar ser bem didático para que todos, principalmente os mais jovens, que não pegaram o tempo do voto de papel, entendam como era o processo eleitoral. Vou falar especificamente sobre a eleição de 1989, que foi uma das últimas eleições com voto impresso e porque tenho uma lembrança mais próxima deste pleito.

Concorreram 22 candidatos à presidência da república naquela eleição. Vou citar os nomes, os partidos, e a votação dos 9 primeiros colocados no primeiro turno no dia 15/11/89.



  • 1- Fernando Collor (PRN)……………22.611.011 votos
  • 2- Luis Inácio Lula da Silva (PT)…….11.622.673 “
  • 3- Leonel Brizola (PDT)……………….11.168.228 “
  • 4- Mário Covas (PSDB)…………………7.790.392 “
  • 5- Paulo Maluf (PDS) …………………..5.986.575 “
  • 6- Guilherme Afif (PL)…………………..3.272.462 “
  • 7- Ulisses Guimarães (PMDB)…………3.204.932 “
  • 8- Roberto Freire (PCB)……………………769.123 “
  • 9- Aureliano Chaves (PFL)…………………600.838 “

Collor e Lula foram para o segundo turno e Collor venceu a eleição com 35.089.998 votos contra 31.076.364 de Lula, no dia 17/12/89.


O DIA DA ELEIÇÃO

A votação iniciava às 8:OO e encerrava às 17 horas. As secções tinham em média 5 mesários. O eleitor recebia dos mesários a cédula assinada pelo presidente da secção e se dirigia para a cabide para votar. Após votar, dobrava a cédula e ia até a urna de lona depositar o seu voto.

Depois de encerrada a votação no final da tarde, a urna era lacrada com um adesivo e levada para o Forum da cidade pelos milicos. Até aí tudo bem.


O ESCRUTÍNIO

Na segunda-feira às 8:00 começava a contagem dos votos. Geralmente o local do escrutínio era no salão de festas do Clube Cantegril, um lugar bem tradicional de Viamão. Até Roberto Carlos já se apresentou nesse Clube.

As urnas eram abertas e os votos eram jogados em cima da mesas, que variavam entre 10 e 12 com seus respectivos escrutinadores. O número de votos de cada urna dependia das zonas eleitorais. As urnas do interior tinham menos votos. Entre 100 e 150 votos. Já as urnas das vilas e do centro da cidade chegavam a 400 votos em média.

Imaginem a loucura que era.



Os escrutinadores dividiam os votos entre si, contavam os votos e depois passavam para o presidente da mesa que passava para o boletim, que depois era entregue para a central da apuração. Esta central recebia os boletins de todas as mesas que eram guardados num cofre. Esta rotina durava uma semana. Além do cansaço físico, tinha o desgaste psicológico, pois os fiscais dos partidos que acompanhavam a apuração reclamavam muito e as vezes o voto era impugnado para que o juiz eleitoral decidisse sobre alguma dúvida levantada pelo fiscal de partido.

Um dos problemas mais frequentes era o voto intencional, que vou explicar a seguir: em 1985, uma emenda parlamentar deu direito de voto aos analfabetos. Claro que estes eleitores tinham dificuldades em escrever na cédula o nome de seus candidatos.

Um exemplo foi o candidato, Sérgio Zambiasi, que foi um fenômeno de votos nos anos 80. Aparecia de tudo na cédula: Zambica, Sabiá. Até zumbi. A orientação da JUSTIÇA ELEITORAL era para que o escrutinador entendesse a intenção do eleitor, o que acho correto.



Muitas vezes a contagem não fechava. O número de votos válidos com a soma dos votos nulos e brancos davam diferença. A solução era descarregar nos votos em branco para fechar o boletim da secção. Não havia nenhuma fraude. Nenhum candidato tinha seu voto subtraído. As pessoas têm que entender que não eram máquinas, como a urna eletrônica que computavam os votos. Máquinas não cansam e nem erram.

Os conflitos entre fiscais e escrutinadores eram constantes nos primeiros dias de apuração. Lá pelo quinto dia os ânimos já iam se arrefecendo. No último dia de contagem (sexta feira), os fiscais até colaboravam, às vezes até nos trazendo cafezinho.

Rolou até namoro e casamento. Um fiscal do PDS com uma fiscal do MDB e da juíza eleitoral com um amigo meu que também era escrutinador. Foi um processo civilizado. Sem chance de acabar em tiroteio.



Hoje, talvez precisasse de uso de coletes à prova de balas. Quando vejo o presidente Bolsonaro querendo a volta do voto impresso, só pode ser por má fé.

A eleição de 2018, teve recorde de abstenções. Foram 42 milhões de votos (20 %) de votos que poderiam ter mudado o resultado daquela eleição. É nesses votos que o milico quer meter a mão. O exército, as milícias e seu gado fanático fariam este serviço sujo.

Ele diz que foi roubado no primeiro turno das eleições de 2018. Então porque não foi roubado no segundo turno? O ladrão deixou cair o roubo no caminho? E roubar para quem, para o PT? Me abana!

Voltar ao voto impresso seria o mesmo que abolir o telefone celular e voltar ao telefone fixo. Nem vamos falar do custo financeiro e da segurança que seria necessária para este retrocesso.

A história é uma espiral ascendente, não volta para trás.

Hélio Ortiz é professor, produtor cultural, e foi Secretário Municipal da Cultura e Esporte de Viamão durante os governos do PT.